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ENTREVISTA
2008 será sem sombra de duvida um ano importante para o concelho de Pampilhosa da Serra. Com as comemorações dos 700 anos da vila, assistiu-se a um desfiar de actividades e iniciativas como nunca se tinha assistido, mas foi também o ano, em que os pampilhosenses ficaram a saber, que mais uma vez o Poder Central, pouco pensa nas terras do interior. Basta para tanto observar com atenção a Concessão do Pinhal Interior.
Entrevistado por: Luís Gonçalves Foi pensando Pampilhosa da Serra à luz desta realidade que ouvimos o Senhor presidente da Câmara, José Alberto Pacheco Brito Dias. Pretendemos com esta entrevista auscultar quem, por inerência do cargo que ocupa, melhor pode informar todos os que de uma ou outra forma se preocupam com as Serras da Pampilhosa. SerrasOnline – 2008 Ano das Comemorações Oficiais dos 700 anos de História da Vila de Pampilhosa da Serra, no nosso entender, ano de profunda alteração na dinâmica do Concelho, é certamente também um ano de muito trabalho. Como se chegou até aqui? José Brito – Na verdade 2008, foi um ano muito importante para o nosso concelho porque comemorar 700 anos deve ficar devidamente registado e nesse sentido o Município fez um grande esforço para ao longo de todo o ano promover uma serie de eventos que registassem as comemorações. Teve dois pontos altos, que foram a comemoração do nosso Feriado Municipal no dia 10 de Abril, e a Feira de Artesanato e Gastronomia, coincidente com as Festas do Concelho no chamado 15 de Agosto. Chegámos a estas comemorações com muito trabalho e envolvimento de muita gente a dar o seu melhor em prol do desenvolvimento do nosso concelho, durante estes 700 anos e também, ainda com muitos problemas por resolver.
S. - Quais as dificuldades inerentes à realização de um programa tão vasto e diversificado? J.B. – Este programa muito diversificado tem actividades ao longo de todos os meses. Realçava algumas delas: As exposições das freguesias em que cada uma tem o seu mês na Pampilhosa, para expor aquilo que de mais característico tem. O facto de ter-mos levado o teatro a cada uma das sedes de freguesia, e continuarmos a ter no final de cada mês uma peça de teatro aqui na Pampilhosa. Todas estas actividades foram baseadas no envolvimento geral de todas as pessoas, porque entendemos que isso é fundamental para que as iniciativas tenham sucesso. Tentámos envolver toda a gente. As exposições das freguesias têm demonstrado esse envolvimento. Como já presenciou na abertura de cada exposição vem quase a freguesia inteira à vila. É muito importante porque assim consegue-se motivar toda a população, no sentido de darem o seu melhor na exposição que apresentam. Nestas actividades temos a colaboração das pessoas e dessa forma – conseguimos eventos a baixo custo.  Mesmo as peças de teatro, muitas delas são gratuitas. O Município paga apenas os transportes e a alimentação. A maior parte são feitas por grupos amadores, diria mesmo quase na totalidade, e se por um lado promovemos quem precisa de ser promovido e mostrar o seu trabalho, por outro permite-nos fazer muito trabalho com pouco dinheiro. Para além disso, em todos estes eventos, conseguimos envolver outras associações que podem dar o seu contributo nas diversas iniciativas consoante o âmbito das mesmas. Foi possível chegar a um programa destes sem esquecer que somos um concelho com dificuldades, e por isso a necessidade de promover iniciativas à nossa dimensão. Procurámos apenas que as festas da vila tivessem mais gente e fossem um marco importante na vida dos Pampilhosenses. Fizemos algum investimento, superior ao habitual, mas que está devidamente compensado naquilo que ficou na Pampilhosa. Quando se pensa num investimento deste género, temos que pensar sempre no que é que fica, qual é o retorno. Ficou alguma coisa no concelho? Claro que sim, e isso é para mim foi muito importante. Ver na Pampilhosa, quinze ou vinte mil pessoas, ver que todos os estabelecimentos comerciais superlotaram, venderam bem, alguns esgotaram. Foi gratificante. Quanto a mim a Pampilhosa da Serra ganhou em todos os aspectos. S – Mas já ouvimos dizer que por essa altura na vila, alguns restaurantes estariam encerrados, e a Pampilhosa teria poucas condições para servir uma refeição decente. Isso é verdade ou são apenas especulações de algumas pessoas menos bem informadas? J.B. – Eu penso que isso é mentira, pois as informações que tenho é de que os restaurantes estiveram abertos. Havia inclusive alguns compromissos para prestar apoio aos vários grupos e isso decorreu normalmente. O que se verificou, é que as pessoas eram tantas, felizmente, que grande parte deles não conseguiu dar resposta suficiente. Mas como complemento existiam as tasquinhas na nossa feira de gastronomia. Foram uma boa alternativa, não só na divulgação da nossa boa gastronomia, como também na possibilidade de fazer com que o dinheiro ficasse aqui no nosso concelho. Optámos para o sector da gastronomia e das bebidas, não permitir que se instalassem pessoas de fora. Isto é: era fundamental que o dinheiro ficasse no Concelho. Só permitiríamos a vinda de comerciantes externos, caso não houvesse interesse por parte dos nossos. S - E os locais responderam positivamente? J.B. – Os locais responderam muito bem a este chamamento. Perceberam qual era a intenção do Município. A meu ver, descuraram um aspecto. Não calcularam a dimensão da enchente no dia 15 de Agosto, apesar de terem sido alertados pela Câmara que, iria haver um movimento enorme à volta das Marchas e que o Tony Carreira, por ser da terra e por estar no auge da sua carreira, movimentaria muita gente, mesmo multidões. Nesse dia tivemos entre quinze e vinte mil pessoas aqui na vila, o que de facto é excepcional. Portanto aqueles que pensam que os gastos nestas festas foram uma despesa, podem ter a certeza que foram um investimento, porque em primeiro lugar divulgámos o nosso concelho e em segundo lugar ficou um retorno superior ao investimento efectuado. Os nossos comerciantes bem precisam destas alavancas, para enfrentarem aquelas fases do ano em que o comércio está mais parado. O Município tem também esta função, que é promover estas iniciativas e fazer com que os nossos comerciantes aproveitem. S – Em termos de planeamento estamos praticamente no fim do ano. Supomos que os próximos eventos estarão já programados. E para o ano que vem? Será de esperar continuidade nesta dinâmica de realizações? J.B. – No caso das iniciativas culturais e desportivas , estas podem não ter a mesma intensidade mas são para continuar. Nesse aspecto há que manter aquilo que tem sucesso, aquilo que de alguma forma estava, não digo esquecido, mas com uma dinâmica inferior ao que devia. Queremos manter algumas, e porventura promover outras. Até porque já fizemos algumas, como é o caso das Primeiras Jornadas da História Local, e as primeiras pressupõem sempre umas segundas e umas terceiras. Foi uma iniciativa muito importante pois permitiu a muita gente conhecer coisas que nem sequer imaginavam acerca do nosso concelho e das nossas raízes. Há uma serie de iniciativas que têm que continuar. O teatro, por exemplo é fundamental que se mantenha na vila. S – Mas o Teatro não tem raízes na nossa cultura como vai captar o interesse? Por exemplo, as pessoas da vila. Como reagem as pessoas da vila ao teatro? Umas das poucas peças a que tivemos oportunidade de assistir, era uma peça excelente e estavam meia dúzia de pessoas na plateia. Pelo que sabemos nas iniciativas que envolvem as gentes das aldeias não é assim. Há uma enorme adesão. Resumindo a questão, nas várias realizações a que temos assistido, muito embora a CMPS tudo faça para contrariar este facto, assistimos a um total divórcio das gentes da vila. Que comentário lhe merece esta questão? J.B. – Realmente verificamos que por vezes as pessoas de Vila não aderem da forma que pretendíamos. Nalgumas ocasiões as pessoas alheiam-se um pouco do que se passa à sua volta e muitas vezes nem sequer aproveitam aquilo que podem e têm de bom na sua Terra. Mas verificou-se uma atitude que quero realçar - o facto de nalguns casos na plateia vermos pouca gente pode parecer desanimador e desmotivador, mas no nosso caso isso não tem acontecido. O que temos feito é persistir e insistir nestas iniciativas, fazendo ver às pessoas que elas são importantes, e que só têm a ganhar se estiverem presentes. O que eu verifico é que a pouco e pouco as pessoas vão aderindo cada vez mais também aqui na vila. Veja-se o caso de sucesso que foi o concurso “Vila Florida”. Aquilo que referiu relativamente ao teatro em cada Freguesia, foi um facto. Não há duvida nenhuma que levar o teatro a cada freguesia foi um sucesso. O engraçado é que íamos contando as pessoas e, de freguesia para freguesia, tínhamos cada vez mais gente. Se havia cem pessoas numa delas, na seguinte tínhamos cento e vinte, e noutras cento e quarenta ou mesmo cento e cinquenta. Isso pode levar-nos também, sem deixar de ter na vila uma vez por mês uma peça de teatro, a levar às freguesias o teatro. Há apenas um senão. Algumas sedes de freguesia ainda não têm as condições ideais para que possamos ter uma peça de teatro com os requisitos que normalmente são necessários para que ela seja possível. Embora os actores que vêm fazer essas peças muitas vezes amadores, são extremamente eficazes, adaptando-se facilmente às condições que têm. Nesse aspecto são incansáveis e fazem com que tudo corra bem dentro daquilo que têm. A presença aqui na vila de tanta gente das aldeias quando das exposições de cada freguesia, foi coisa que não se verificou tanto na exposição da freguesia da Pampilhosa. Eu tenho dificuldade em explicar porque é que isso acontece, mas o que é facto é que isso é verdade. As pessoas aqui da vila alheiam-se um pouco desse tipo de coisas, enquanto que das outras freguesias agarram estas iniciativas com mais força, provavelmente porque não têm tantas oportunidades. S - No novo plano de estradas para a zona do Pinhal Interior, ficamos com a sensação de que Pampilhosa da Serra continua num autêntico “buraco geográfico”. Qual a posição da Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra, face a esta realidade que teima em não mudar? J.B. – Nesse aspecto, o nosso concelho que tem tantas potencialidades, para inverter este ciclo precisa de ter aqui uma grande acessibilidade, e eu manifestei isso mesmo ao Senhor Secretário de Estado das Obras Públicas. Não só eu mas todos os presidentes que fazem parte da Comunidade Intermunicipal do Pinhal, que inclusivamente deram como prioritário a abertura de uma grande via que atravesse este território ligando o IC8 ao futuro IC31 que vem de Monfortinho ligar à A23. É importante verificar, e o nosso país tem que entender, que sendo a Figueira da Foz o porto de mar mais próximo de Madrid, criar-lhe uma boa acessibilidade é fundamental, não só para esta região como também para o país. De facto Madrid já tem auto-estrada até Monfortinho o IC31 é já uma realidade, pois a obra está prestes a ser lançada. Falta fazer a ligação, cujo traçado mais curto será pelo Vale do Zêzere, beneficiando a parte Sul do Fundão, o lado Norte de Castelo Branco, Pampilhosa da Serra e Oleiros e todos os outros Municípios que nesta linha iriam beneficiar deste eixo, fundamental para esta Região e também para o País. Foi prometido pelo Senhor Secretário de Estado que iria fazer os respectivos estudos, porque entendeu perfeitamente o que está em causa com a construção desta grande Via. Como nós sabemos é uma obra que terá custos elevados. Mas o Concelho de Pampilhosa da Serra faz parte do todo nacional e para progredir, para se desenvolver, precisa de uma grande via. Como tenho dito várias vezes, o nosso país não é assim tão grande para que os nossos governantes se possam dar ao luxo de desperdiçar território. Das duas uma, ou apostam nesta região, pois temos aqui uma ilha sem acessibilidades e, potenciam as riquezas que temos ou então o progresso deste nosso território torna-se mais difícil de atingir. O que eu costumo dizer é que temos que continuar a lutar e não baixar os braços. Essa é a nossa obrigação. Não podemos dizer que tudo vai morrer, que é o Concelho dos Incêndios, e que já estamos condenados. Não podemos ser os profetas da desgraça, temos que ter esperança no futuro. Eu tenho. S – Mas para Pampilhosa da Serra que melhorias estão previstas? J.B. - O que ficou previsto em termos de concessão que foi amplamente anunciada na CS, foi a melhoria da N2 entre a Portela do Vento e a Portela de Góis e o encaixe na futura N342, Lousã, Góis, Arganil, que ligará ao IC3 em Miranda do Corvo. Essa que é uma grande via à qual teremos acesso directo, vai porventura ser uma alternativa à chamada Estrada da Beira ( EN17). Depois dessas ligações feitas chegaremos com maior rapidez a Coimbra através do IC3. Consegui aqui na Pampilhosa durante o anúncio da concessão a rectificação entre Pampilhosa da Serra e o cruzamento de Maria Gomes. Depois de já o ter exposto em Lisboa e não ter sido atendido, porque eu sempre pedi também a rectificação da N344 entre Pedrogão Grande e Pampilhosa da Serra, S- Podemos então depreender que a Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra não está conformada com a situação actual? J.B. – Eu não me conformo. Já o disse várias vezes. Estas melhorias, tenho que reconhecer que são importantes, mas não são aquilo que a Pampilhosa precisa. Nós não podemos pensar só na Pampilhosa. Este investimento tem que ser pensado tendo em conta o que toda esta região precisa. É um investimento necessário para desenvolver toda esta Região do Pinhal. Não é só importante para a Região do Pinhal Interior Norte, mas também, para Região do Pinhal Interior Sul, pois irá potenciar todos os recursos que temos neste território, atrair mais empresários e consequentemente criar mais postos de trabalho. Nesse aspecto as acessibilidades são fundamentais para incrementar o investimento, que possa criar postos de trabalho e fixar pessoas. S - A floresta, foi recentemente alvo de atenção especial, quando da promoção do Concelho na C.I.C e na F.I.A no entanto, não assistimos no terreno a mudanças significativas tendentes a debelar o resultado da tragédia de 2005. O que pensa deste assunto, e o que podem os visitantes e pampilhosenses encontrar de novo no terreno? J.B. – A floresta é um sector fundamental do nosso concelho que está muito ligado a todas as outras potencialidades que nós temos. Por exemplo, não é possível pensar em turismo sem floresta. A floresta é importante por si própria, pela riqueza que gera, e também pelo facto de potenciar outras actividades. Após os incêndios de 2005 gerou-se uma grande expectativa pelo que nos foi prometido na altura. A ideia era que este território tivesse um tratamento adequado no sentido de se evitarem situações idênticas. Desde logo, pensámos que o ordenamento iria ser uma realidade que as infra-estruturas de defesa iriam ser feitas e que tudo iria funcionar de forma diferente. O facto é que por parte da Administração Central, a única resposta quanto a planeamento foram as chamadas ZIF, Zonas de Intervenção Florestal. Essas ZIF, foram muito divulgadas pelo Município, nomeadamente em acções de sensibilização em cada uma das freguesias, e uma na Casa do Concelho, em Lisboa, uma acção para os Pampilhosenses residentes na capital. A ideia foi dizer-lhes o que era este instrumento e quais eram as condições que existiam para que fosse possível criar estas Zonas de Intervenção Florestal. Andámos pelas freguesias todas divulgando e anunciando que era a única resposta a que os proprietários deviam aderir. Nessa informação foi anunciado que iriam ser criadas equipas técnicas que estudariam os terrenos, quais os tipos de árvores que eram adequadas a cada local, e com isso gerariam maior riqueza aproveitando desta forma o território vasto do nosso concelho. Foi explicado como funcionava, que cada pessoa entrava com o seu terreno e que no final a percentagem na distribuição dos lucros era feita de acordo com a proporção que cada um detinha. Mas as pessoas são muito ávidas do que é seu, e como não gostam de ver outros a gerir o que é deles, no final o que se verificou, foi falta de adesão. Houve de facto muito pouca adesão, estando apenas em curso a formação de uma ou duas ZIF.
S – Por outro lado o modelo proposto não estaria errado para o território Pampilhosense? Não seriam demasiados hectares e demasiados proprietários? J.B. – Esse modelo era o possível tendo em conta o custo da equipa técnica. Isto é, a ZIF pressupunha à partida uma grande área para ser rentável. S – Mesmo em Pampilhosa da Serra? J.B. – Mesmo em Pampilhosa da Serra, e nós que temos aqui 400 Km2, tínhamos hipótese de criar muitas ZIF. É evidente que criando áreas tão grandes, e exigindo tão grande número de proprietários dificulta muito mais as tarefas. Perante tais dificuldades o município tomou a decisão no Executivo no sentido de licenciar os pedidos de reflorestação com algumas condições de defesa, designadamente a densidade de árvores junto aos caminhos ser muito menor, o afastamento relativamente a esses caminhos serem uma realidade. Em suma, uma serie de obrigações que as pessoas têm que cumprir por forma a aumentar a defesa contra incêndios. S – Nessas obrigações entravam também as espécies a plantar? J.B. – Também, como é evidente. Nos vales, nas zonas mais húmidas a obrigatoriedade de plantar folhosas, já que sabemos que estas espécies funcionam quase como aceiros naturais. Há, no entanto, licenciamentos em que o município não intervém. Dependem da circuncisão florestal. As plantações que têm mais que 50 hectares não têm qualquer licenciamento por parte do Município. A par de tudo isto, devo dizer que continuamos com duas niveladoras nos caminhos florestais, e promovemos algumas iniciativas que vão impedir que alguns fogos se transformem em incêndios. Com as equipas de primeira intervenção, com as equipas dos bombeiros, com os GIPS da GNR, com os sapadores florestais, com as viaturas das empresas que têm interesses aqui na floresta, e com a oferta de viaturas às Juntas de Freguesia como complemento do kit de intervenção rápida entregue pela Administração Central, com o Helicóptero aqui sediado, conseguimos criar uma rede de vigilância e intervenção rápida muito apertada e eficaz. S – Espera com isto eliminar a possibilidade de incêndios? J.B. – Vamos com certeza eliminar alguns fogos, já o conseguimos este ano. S – Este ano pelo que temos conhecimento, todos. Estamos certos? J.B. – É evidente que as temperaturas não foram muito elevadas no mês de Agosto, o S. Pedro tem de alguma forma colaborado este ano. Os problemas que tivemos foram extintos imediatamente após o seu início, isto porque são detectados com rapidez e, toda esta gente conjugada através do nosso gabinete de defesa da floresta, em que cada um tem o seu ponto de vigilância, conseguimos criar uma rede apertadíssima. Por outro lado esta vigilância tem outro efeito. Todos sabemos que muitos dos incêndios têm origem criminosa, têm a mão de malfeitores. Penso que o facto de saberem que temos no terreno uma vigilância apertada tem um efeito dissuasor. Há outro aspecto importante. Após os incêndios de 2003, que afectou a zona do Machio e Portela do Fojo, o concelho de Pampilhosa da Serra foi indicado como concelho piloto para a criação das redes primárias. Isto é: são definidas as vias principais, ou seja os locais mais apropriados para conseguirmos fazer a extinção de um incêndio. Geralmente são vias que se desenvolvem ao longo das estradas de maior dimensão e onde vão ser implementadas já este ano. Já foi feita uma parte, junto à estrada N112, esta no âmbito do programa AGRIS, onde a candidatura teve a sua acção principal na zona da Freguesia de Pessegueiro. Mas esse trabalho vai ser agora complementado pela DGRF com a feitura destas redes primárias de defesa. O resultado final será grandes linhas de contenção, grandes linhas que vão ser limpas, de forma a permitirem a extinção de incêndios com maior facilidade. S – Acredita que em 2005 tudo teria sido diferente se essa linha de contenção estivesse já a funcionar? J.B. – Acredito plenamente, e gostaria de dizer o seguinte: Eu vivi intensamente esse problema, pois na altura era comandante dos Bombeiro Voluntários de Pampilhosa da Serra. Como é sabido tive que abandonar por causa do acidente que sofri e vi acontecer o que nunca mais pode acontecer. O incêndio era tão extenso, com fogo em todo o lado, que a determinada altura, os bombeiros já só defendiam as populações. As frentes de fogo andavam quase à “vontade”. Com a mudança constante dos ventos anormalmente fortes e temperaturas elevadíssimas, era uma coisa louca, nunca ninguém tinha visto tal. A conclusão que podemos tirar é que os aceiros por si só não bastam. Acredito que a resolução de muitos problemas passa concerteza por esta vigilância e primeira intervenção muito rápidas e pela rede primária que vai ser implementada. S – Como nos acaba de demonstrar as coisas em termos de vigilância estão garantidas. E em termos de futuro? O que se pode esperar em termos de futuro para a floresta? J.B. – O futuro da floresta, tendo em conta que as pessoas não aderiram às Zonas de Intervenção Florestal, depende um pouco das iniciativas privadas. Aqui há um papel que é fundamental que o Município está a equacionar. Apoiar os proprietários no levantamento cadastral. Será importantíssimo para o futuro, não só para aqueles que são proprietários e muitas vezes nem sequer sabem onde ficam as “estremas” dos seus terrenos, mas também por questões de ordenamento. Estamos a pensar seriamente no assunto. A nossa Associação Florestal, bem como o Município estão munidos de GPS. Vamos tentar que os proprietários também participem neste trabalho pois é importantíssimo para eles. Outro aspecto importante é o facto de a floresta no futuro ter cada vez mais valor. Não nos podemos esquecer que as cotas de CO2, que as empresas vão ter necessidade de adquirir para que possam continuar a laborar, têm que ser compensadas por este território florestado. A floresta vai ser uma mais valia, para além do valor que encerra em si. Dentro de poucos anos vai ter um rendimento acrescido para os seus proprietários. S – Acredita que no futuro, o rendimento obtido com a venda das cotas de CO2 será minimamente aplicado nos territórios florestados? J.B. – Acredito nessa necessidade. Os proprietários de grande dimensão já perceberam isso. Têm que plantar cada vez mais. O que se verifica actualmente é que há muitas empresas a comprar e a alugar terrenos, para fazerem as plantações, e assim retirarem, para além do rendimento esperado, também esta possibilidade que é a de negociar as cotas das emissões. Aqui os proprietários particulares estão um pouco desmotivados na reflorestação, porque de facto aquilo que verificam é que o nosso concelho tem sido vítima constante de incêndios e por vezes vêm o seu investimento arder. Isto tem sido desmotivador. O que é importante referir, é que está a haver uma atenção cada vez maior na defesa da nossa floresta e que os proprietários têm que continuar a acreditar. Nós enquanto Município ajudaremos dentro do que for possível uma vez que não podemos interferir no que é particular. Temos sim uma obrigação. Criar condições e motivar as pessoas. Isso nós tentamos fazer não só com a ajuda do nosso Gabinete florestal, mas também das nossas máquinas que estão constantemente na floresta a abrir e limpar estradas e aceiros durante todo o ano. S - Gostaríamos agora, Senhor Presidente de dar uma pequena “volta” pelo concelho. Começava desde logo pelo "projecto âncora" da Portela de Unhais (a fábrica de briquets). Que novidades nos pode dar quanto a este importante projecto empresarial? J. B. – O projecto anunciado e divulgado para a Portela de Unhais, está a provocar muitas preocupações a mim e a todo o executivo. De facto, a PineWells, foi recentemente adquirida pela Visabeira na maioria do seu Capital, e esta Empresa começou imediatamente a lançar muitas reticências quanto à localização deste investimento. Visto ser necessário trabalhar também com serradura e estilha, o vento e o afastamento a boas acessibilidades, foram as principais dificuldades apresentadas. Perante este cenário, imediatamente foi indicado outro local, na zona de Portela do Fojo, que pudesse dar resposta a este problemas técnicos, indicados como impeditivos da localização anteriormente apontada. Não tenho ainda qualquer resposta formal, relativamente à decisão final da Visabeira, mas estou muito céptico quanto à instalação desta Empresa, e vou desde já manifestar na próxima Assembleia Municipal que se realizará em 27 de Setembro, esta preocupação e, todas as diligências que entretanto fiz junto do Senhor Governador Civil, do IAPMAI, da Visabeira e da Caixa Geral de Depósitos, no sento de que este investimento se concretizasse no nosso Concelho. S – Senhor Presidente, nesta nossa viagem pela actualidade do concelho, não podia de forma alguma deixar escapar a oportunidade para falar num projecto que a nosso ver é emblemático. Estamos a falar do novo Centro Educativo. Que razões levaram à aposta no Centro Escolar de Dornelas do Zêzere, houve algum estudo prévio? Que razões levaram à aposta naquela Freguesia? J.B. – O Centro Escolar de Dornelas do Zêzere está previsto na nossa Carta Educativa. A propósito deste Centro Educativo gostaria de dizer-lhe o seguinte: Acredito que a educação e a formação são fundamentais para o bem estar e o progresso do nosso concelho. Nesse sentido temos que apostar cada vez mais neste sector. Elaborámos a Carta Educativa de acordo com aquilo que a lei previa e de acordo com aquilo que eram as nossas necessidades. Foram ouvidas todas as pessoas que estão ligadas a este sector que têm conhecimento da matéria e assim se concluiu da necessidade de construção do centro educativo nesta localidade. Mas a principal razão foi que aquela zona dista da sede de concelho cerca de 35 km. Em Pampilhosa da Serra temos que medir as distâncias, não pelos quilómetros mas pelo tempo que demora a chegar à sede de concelho. É importante referir, que é violento, deslocar crianças de 6 anos tão longas distâncias. Mais, nenhum pai permite que o filho de 6 anos se levante às seis da manhã e chegue a casa às sete da noite. É muitíssimo importante referir isto, pois para as crianças nestas idades é uma violência tremenda, sujeitá-las a um percurso deste género. Por outro lado, o Centro Educativo para além de ir acolher as crianças das freguesias de Dornelas, Janeiro de Baixo, Unhais, e Vidual, vai permitir outro aspecto importante. Mais ano menos ano, e segundo o parecer do Concelho Nacional de Educação, o primeiro ciclo deve ter agregado o segundo. O 5º e 6º anos devem estar junto do 1º, 2º, 3º, e 4º e apenas com um professor para a parte de Letras e outro para a parte de Ciências tornando mais leve a estrutura técnica necessária. É importantíssimo que o Centro Educativo de Dornelas tenha essa resposta rapidamente, precisamente para evitar esta sangria que temos verificado no dia a dia. Os alunos daquela zona fazem o primeiro ciclo e normalmente não vêm para a sede de concelho. Vão principalmente para o concelho vizinho. S – Mas isso é um drama? J. B. – Não é que seja um drama mas é com toda a certeza mais um factor de desertificação. Normalmente esses alunos nunca mais regressam, porque criam ligações a outros locais e isso faz com que esta fuga seja um factor de desertificação. Com a criação do Centro Educativo de Dornelas, que vai ter todas as condições que a escola sede tem, vamos ter no futuro a funcionar, apenas o Centro de Dornelas e a EBI na sede do Concelho. S – Tem alguma esperança que o actual fluxo de dentro para fora se inverta nesta zona? J.B. – Eu pessoalmente tenho muita esperança nisso. Em Dornelas vamos ter um centro educativo com excelentes instalações composto de ginásio, refeitório, biblioteca e cozinha, entre outras mais valias. Penso que tudo isso vai fazer com que as populações ali à volta pensem duas vezes. A uma das povoações até lhes basta atravessar a ponte sobre o rio Zêzere. Estou convencido que vamos atrair essas crianças. Faz todo o sentido a criação do Centro Educativo em Dornelas do Zêzere e penso ser fundamental para o futuro daquela região. S – Continuando pelo concelho e falando agora da saúde. Para quando a construção do novo centro de saúde de Pampilhosa da Serra? J. B. – A construção do novo centro de saúde não depende de nós, mas tenho tido uma luta muito grande para que isso seja uma realidade. O actual centro de saúde não tem as condições ideais para o serviço que presta e precisava de obras. A Administração Regional de Saúde, diz que não faz obras em edifícios que não sejam da sua propriedade. Como o edifício é da Santa Casa a proposta que fizeram foi construir um novo centro de saúde na Pampilhosa para o qual já pediram terreno à autarquia. A CMPS já decidiu ceder o terreno. Já o comunicou juntando o respectivo levantamento topográfico. As informações que tenho neste momento é de que está já a ser feito o projecto, havendo a dúvida de o conseguir inscrever em PIDDAC para o próximo ano. A perspectiva mais provável que me deram, foi que será em 2010, mas com a promessa do Senhor Presidente da Administração Regional de Saúde fazer todos os possíveis para o incluir no próximo ano. Mas esta questão do centro de saúde tem outra implicação muito importante. Será de certa forma substituir os internamentos, pelos cuidados continuados que a Santa Casa vai prestar com o novo edifício. A Santa Casa no novo edifício, penso que tem dois pisos previstos para os cuidados continuados. Assim sendo teremos no novo centro de saúde a convalescença e os cuidados continuados serão entregues à Santa Casa com um acordo que farão com a ARS. A saúde é fundamental para que haja pessoas, ninguém vive onde sabe não haver resposta imediata a qualquer problema que tenha. S – Já falámos de cultura, estradas, floresta, de educação, de saúde, chegou a vez do lazer. Senhor Presidente, para quando a construção, ou reestruturação da praia fluvial da vila? J. B. – A praia fluvial de Pampilhosa da Serra, ou seja a requalificação do rio Unhais dentro da vila, foi agora a concurso e foram agora abertas as propostas, (19/09/2008). São concursos demorados e talvez a adjudicação ocorra dentro de quatro cinco meses. Provavelmente para o princípio do próximo ano. S – Teremos a vila mais bonita nas próximas festas do concelho? J. B. - Não creio, mas estaremos em obra com certeza. Já que falamos nisso devo dizer-lhe que toda esta zona da vila, vai ter uma intervenção importantíssima para lhe dar outro aspecto, não só à vila mas também a outros espaços que a envolvem. Refiro-me concretamente aos lagares, que o Município está em vias de adquirir. Já foram adquiridas algumas partes, como sabe os lagares por tradição são de vários proprietários, e em alguns casos ainda não formalizámos o negócio, apesar de verbalmente estar feito com todos. Também estamos a negociar os moinhos antigos, e temos que adquirir duas casas que estão junto do lagar, aqui na zona dos bombeiros, de forma a requalificar todos esses espaços. A Câmara também adquiriu recentemente um sítio chamado “o cabecinho”, na parte de baixo do açude onde é feita a represa da água, e estamos a fazer o projecto para essa zona. Outra aquisição, foi a antiga residência de estudantes, cuja obra já foi lançada. Foram já abertas as propostas e está já adjudicada, estando apenas a decorrer os trâmites necessários ao início da mesma. S – Depois do lazer os eventos, que em nosso entender, marcam de algum modo a actualidade. No recente encontro de Juristas da Pampilhosa da Serra a CMPS fez-se representar de forma inequívoca, tendo o Senhor pessoalmente assegurado tal representação praticamente todo o primeiro dia. Aprendeu alguma coisa das “coisas da Justiça”? Qual a sua opinião quanto a este encontro? J. B. – Aprendi bastante, e quero desde já endereçar os parabéns à Casa do Concelho por esta iniciativa, à qual o Município se ligou e continuará a ligar pois penso que foi a primeira de muitas outras que se vão seguir neste âmbito. Tive a oportunidade de assistir durante todo o primeiro dia, e para pena minha não me foi possível assistir no segundo dia devido a compromissos que haviam já sido assumidos. Realmente foi muito bom verificar, que não só a Pampilhosa da Serra é muito rica no número de juristas e na qualidade dos mesmos, mas também nas excelentes intervenções, e aqui não quero realçar nenhuma em particular para não ferir susceptibilidades. Como tive hipótese de referir no início, este encontro para além do convívio que gerou entre juristas do nosso concelho, da troca de experiências e conhecimentos, proporcionou outro aspecto que é fundamental para o concelho de Pampilhosa da Serra. Apesar de saberemos que nenhum tribunal vai encerrar, ficamos na dúvida quanto à resposta que o nosso tribunal vai dar às necessidades das nossas populações. Como este Mapa Judiciário prevê 39 Comarcas com 3 Comarcas piloto a funcionar até 2010, significa que estas estarão a funcionar para que se tirem conclusões de acordo com as experiências obtidas. Depois destas 3 Comarcas piloto tirarem as suas ilações, segundo a informação que tenho, vão ser ouvidos, a Ordem dos Advogados, o Conselho Superior da Magistratura, o Conselho Superior do Ministério Público, a Câmara dos Solicitadores, e o Conselho dos Oficiais de Justiça, isto quer dizer que o mapa Judiciário não é definitivo. No Encontro de Juristas, o meu pedido a todos foi de que no seu trabalho, nas funções que desempenham fizessem sentir que aqui também há pessoas que têm direitos, e um dos direitos é o acesso à justiça. Estamos num concelho onde tudo é longe, por outro lado não temos uma rede de transportes que facilite a vida a quem precisa de aceder a tais serviços. Em suma, seria fundamental que o nosso tribunal tivesse aqui uma resposta de média instância, tanto cível como criminal, até porque temos excelentes condições no edifício construído há poucos anos para o efeito. Poderia até ser pensada outra situação. Porque é que o Juiz da Pampilhosa, e os funcionários judiciais não hão-de fazer com que o tribunal de Oleiros funcione estando dois dias num lado e três no outro, já que não são necessários aqui nos cinco dias da semana? Poderiam aproveitar-se estes recursos, embora Oleiros fique em Comarca diferente. Como o actual mapa não é definitivo este aspecto podia muito bem ser corrigido. Esta era uma forma de rentabilizar recursos e ao mesmo tempo dar resposta às nossas necessidades. S – Para terminar esta nossa entrevista, gostaríamos de referir a recente entrevista do empresário António Sérgio, onde são tecidas algumas considerações acerca do actual momento que se vive no Concelho de Pampilhosa da Serra. Qual o comentário que lhe merecem tais considerações?
J. B. - Não é tempo para comentar insinuações sem qualquer fundamento, sobre pessoas de grande capacidade de trabalho e de uma ampla visão estratégica de desenvolvimento, que trabalham comigo com toda a garra. Nós não somos de memória curta. Não é admissível, nem justo, que de repente só porque têm ideias próprias, alguém os passe de Bestiais a Bestas. Este é ainda tempo de trabalho, pela Pampilhosa da Serra. Estamos a um Ano de Eleições. No tempo próprio, colocaremos em cima da mesa o “deve e o haver” e os Pampilhosenses decidirão. Como são inteligentes, reconhecerão que há pessoas que com uma entrega total, se dedicam em exclusividade à defesa do progresso do nosso Concelho. Outras opções são por nós respeitadas, apoiadas e dignas de registo, desde que legítimas. Os pampilhosenses bem sabem quem tudo confunde, e quem tudo mistura.
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